06 jul
7:48

Prezados amigos e leitores desta coluna, com prazer e alegria vos trago mais uma reflexão para este mês de julho. Este é um momento interessante do ano no hemisfério sul, pois estamos inaugurando a estação do inverno e talvez esta seja uma das épocas preferidas para a prática do esporte neste país. Digo isto porque pude ter contato com o pensamento de alguns diretores de escola e professores de educação física que abordam xadrez em suas atividades com os alunos e eles comentaram que nessa época há muitos riscos de lesões na prática esportiva de outras modalidades coletivas como basquete, vôlei, handebol e futebol. É por isso que eles procuram dar certa preferência ao xadrez neste momento do ano.

Vivemos aqui no Rio Grande do Sul no início deste mês uma pequena monção asiática, com chuvas constantes e aparentemente intermináveis. Foram praticamente 20 dias seguidos com ao menos uma a duas horas de chuva por dia e o céu cinza e nublado. Pois bem, num destes dias que aconteceu a passagem que eu vou estar vos trazendo na coluna deste mês.

Tenho o hábito de mandar mensagens a alguns contatos na segunda feira desejando uma boa semana e motivando as pessoas para seguirem suas lutas pessoais em busca dos seus objetivos. Se isso é útil ou mesmo correto eu não sei, só sei que tenho feito com alguma frequência e naquela segunda eu fiz novamente. Era uma segunda feira que iniciou chuvosa como todos os demais dias que vínhamos tendo naquele período, mas mesmo assim eu mandei a seguinte mensagem à maioria dos meus contatos:

“Bom dia, o sol te presenteia hoje com uma semana repleta de oportunidades para tu seres feliz, que tu possas aproveitá-las da melhor forma que te for possível!”

Talvez você possa concordar comigo que não há nenhum problema de correção gramatical e tampouco de intenção na minha maneira de comunicar com as pessoas nessa frase. O que de repente a tiraria fora de contexto seria o fato de estar chovendo no exato momento em que eu enviei a mensagem para essas pessoas.

Prontamente, em cinco minutos, um rapaz de um grupo de whatsapp de um pub respondeu dizendo o seguinte: “que sol!?” Nossa, como isso me irritou! Cheguei a dizer pra mim mesmo: não responde nada pra este sujeito. “Puxei meu freio de mão” e fiquei onde estava.

Meu querido leitor, talvez você possa estar se perguntando se essa coluna desse mês é realmente sobre xadrez e porque tantas divagações do início até aqui, mas saiba que tudo isso aconteceu dessa forma justamente pra eu compartilhar contigo o porquê do xadrez ser tão útil para as nossas vidas, seja pra mim ou pra ti.

 

Imagina que o sol seja um bispo posicionado acima de uma colina, chamai-a de E4, por ser a mais alta de todas. Utilize sua abstração e seu pensamento estético e artístico para me acompanhar nessa viagem, mas leve, por favor, umas boias porque nosso mergulho nas terras desconhecidas da imaginação será profundo nessa oportunidade. Como já diria aquele velho ditado antigo da sabedoria popular: “é melhor prevenir do que remediar”.

Pegue emprestado o conceito da modalidade enxadrística “king of the hill” ou “rei da colina” numa tradução livre, e imagine que o casa E4 seja a colina mais alta do tabuleiro e que acima dela está posicionado um bispo. Se você bem já observou ao jogar xadrez, o bispo é uma peça capaz de desenvolver o ataque em “raio x” que no contexto desse nosso amado esporte significa manter-se ameaçando controlar um determinado ponto do tabuleiro mesmo que haja outras peças interpondo o caminho. Essa ameaça é, portanto, paradoxal, porque existe de modo concreto e subjetivo ao mesmo tempo. Isso significa dizer que, qualquer peão ou outra peça que esteja na diagonal ameaçada pelo bispo interpondo o seu caminho, se retirada, implica no bispo poder chegar ao ponto ameaçado já no lance seguinte. Você provavelmente na sua trajetória enxadrística já deve ter feito algum tipo de combinação com o objetivo de liberar o caminho para a ação de um dos seus bispos e eu apenas estou usando esse exemplo para te trazer uma nova visão da mesma coisa.

Agora, fazendo uma comparação aparentemente tosca e improvável, não seria o sol também capaz de uma ação em “raio x” como o  bispo do jogo de xadrez? Havendo nuvens negras de chuva posicionadas em seu caminho, ou mesmo nuvens brancas de vento a lhe desafiar, ele segue iluminando o nosso dia com seus raios e apresentando uma série de novas oportunidades que a luz tem a nos oferecer. Na escuridão da noite não vemos nada, num amanhecer chuvoso talvez tenhamos nossa visão encoberta, mas ele segue lá cumprindo o seu papel, de modo eficiente e simples como sempre foi.

Considerando que você não tenha se afogado nesse nosso mergulho pelo mundo da abstração, é perfeitamente possível que você possa concordar comigo numa questão que eu defendo na minha prática profissional em psicologia, a qual se relaciona diretamente com as minhas vivências na arte e no xadrez: se somos capazes de criar ou mesmo atrair problemas pra nós mesmos, também o somos para encontrar as soluções.

É uma pena eu não ter tido oportunidade de ajudar o rapaz que me respondeu aquilo no whatsapp, mas outros colegas, enxadristas inclusive, que escolheram a mesma “variante” acabaram refutados pela “profundeza inestimável e indubitável” presente no “cálculo” desta percepção sobre o sol e a chuva naquela manhã de segunda feira.

Ter visto isso e participado desses diálogos me faz pensar que não poderia deixar de ser compartilhado com pessoas que tenham interesse em encontrar alternativas para viver melhor no país em que vivemos, ou mesmo para pessoas que tenham apenas o interesse em evoluir no âmbito do jogo de xadrez. Os melhores jogadores me parecem ser aqueles que conseguem encontrar um equilíbrio ideal para estar entre a dimensão artística e dimensão lógica e estratégica do nosso esporte. Por isso, agora tenho argumento enfim pra dizer que se trata de uma reflexão útil e pertinente sobre a vida e o xadrez.

Gratidão a todos por esta oportunidade, mas principalmente e fundamentalmente ao Rogério Santos, por ter aberto as portas da revista para a minha pessoa e ao meu amigo Lucas Schwartzbach pelo design gráfico da arte que buscou ilustrar o que foi trazido no artigo.

Talvez você não veja mais o sol da mesma forma daqui pra frente…

#pensenisso!

Mova seus peões!

Por Alexandre Herzog

Psicólogo e Enxadrista

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Rogerio Santos

Editor Chefe da Revista Meio Jogo. Arbitro FIDE e jogador de xadrez nas horas vagas, tem contribuído para a divulgação do jogo nos maiores canais de notícias do país.

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